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Cecilia Prada 

 
Escrever memórias é sequinho e num trilho. Ou antes, nos trilhos, trenzinho puxando vagões, corrediço e normal. Minhas memórias são o material apenas, de minha escrita descarrilada. Ou pelo menos, sujeita a descarrilamento – com a graça-de-Deus, porque assim deve ser qualquer escrita literária que se preze. Trem caprichoso, metamórfico, polimórfico, bêbado nos trilhos, se sacolejando garrafa na mão, se carnavalizando, enveredando por caminhos só seus e dando banana ao memorialista.

                                                              ***
                                     
Um destes dias, ao passar ao meio-dia pela Avenida Paulista, encontrei de repente, numa surpresa, minha xícara de chá da infância, minha madeleine paulistana - a ponta da Memória, o som rouco da recordação: a sirene da GAZETA. Pessoas iam e vinham, esvaziavam-se andares e secretárias corriam para os restaurantes de quilo, atoleimava-se minha Cidade em faminta agitação.Mas eu, parada na calçada, saboreava pedaços esgarçados de um tempo distante. Entrava em mim uma menina dos anos 40, dos anos da Guerra. E o som que eu ouvia não era diluído, abrandado, não se perdia no meio da manhã da Avenida. Era o mesmo, sim, mas rouco, sombrio, um uivo poderoso varando o  silêncio absoluto – em noite de blackout do tempo da Guerra. 

Reunidos em casa de minha avó nos Campos Elíseos, em torno da mesa grande da sala de jantar sobre a qual uma tímida lâmpada de 40 velas pingava, autorizada a custo, assumíamos cara de solenidade. Sabíamos que não era de verdade, só um exercício. Mas poderia bem ser. Não diziam que em seis horas de vôo, apenas, os aviões alemães poderiam atingir Natal?  

De todo jeito, onde mesmo ficava Natal? - cidade longínqua e calorenta, devia ser, como tudo o que ficava lá pelo Norte.

A campainha da porta tocava súbita,  causando calafrios - era a voluntária da Defesa Civil,de farda azul-marinho, quepe enviesado, levando a mão à pala em um arremedo de continência:  desculpassem, mas a cortina - negra e espessa, feita expressamente para a ocasião - não estava bem fechada, uma réstia rebelde de luz aparecia. Desculpassem, a luz era um perigo,podia atrair os aviões inimigos. Foi logo substituída por castiçal e vela, coisa que muito me agradava, identificando-me com personagens  de antigas histórias assombradas.

Mas o grande perigo, de verdade, era se a guerra de repente acabasse, antes de eu ter idade para me alistar, moça, magra e elegante, de batom vermelho muito vivo e de quepe enviesado, na Defesa Civil.

Traidora e má, a Guerra não esperou por mim, acabou. 

                                                            ***

Na letrinha redonda das meninas-família eu escrevia que quem era o presidente da República era o Doutor Getúlio Dornelles Vargas, continuava a ser o doutor Getúlio Dornelles Vargas, cuja continuidade no poder ninguém parecia estranhar. Vagas memórias de comícios em que eu ficava lá embaixo, esfregando o nariz nas pernas dos adultos. De comitês no Centro do Professorado Paulista, onde  senhoras de tailleur e chapéu de feltro  faziam longos discursos inflamados enquanto eu, única criança nesses lugares, dormia a sono solto, só acordando estremunhada na hora dos aplausos. No ar, dispersas frases sobrevivas, em blocos, “Revolução de 32”, “legalidade”, “Constituição” – que seria aquilo? Nas casas, capacetes e obuses enferrujados escondidos no armário, retrato de algum sobrinho jovem e morto, uma bandeira amortalhada em um gavetão. Perguntei o que era, me disseram em devoto sussurro: “A bandeira paulista que o Getúlio mandou queimar.” 

 
                                                          ***
 
O principal medo, na família, era o dos comunistas. Eles sim, viriam, matando criancinhas, invadindo as casas, enfeiando as moças,  condenando-nos a passar fome, colocando-nos diante de pelotões de fuzilamento. O caldo da fervura dos anos 30 engrossava-se com a Guerra Civil espanhola – que na família católica repercutia como o horror dos horrores porque os padres e freiras eram obrigados a fugir da Espanha.

 - Sim, e fogem levando seu ouro escondido nos santos!

A voz, indignada, era de Dona Anita, espanhola e mulher do seu Muñós, que era aos meus olhos de medo o único monstro comunista que eu conhecia – terrível, falava alto, dava murros na mesa enquanto discutia com meu pai, que era católico fanático de comunhão diária e que partilhava com meu tio Egídio, seu irmão, a opinião de que todos os comunistas deveriam sim, morrer na cadeira elétrica ou fuzilados. Então, naquela noite de discussão, eu sentadinha no degrau da cozinha da casa do seu Muñós, morria de medo porque ele decerto ia matar meu pai. E queria ir embora logo, e acho que fomos mesmo, e nunca mais voltamos. E seu Muñós tinha um filho que era muito gordo e andava de motocicleta, uma coisa potentíssima e barulhenta que me fazia também muito medo. Francisco, se chamava , e morreu moço, do coração, e eu pensava “bem feito, quem mandou ser comunista”.

Mas houve um comício em particular que me deu um medo muito maior. Pude presenciá-lo melhor, não mais “lá embaixo”, vendo pernas de pessoas e amassada entre elas, mas do balcão de uma sala nobre do Colégio São Bento, onde me levara meu pai.

 - Por que todos estão vestidos de preto?

Devo ter perguntado meio alto e meu pai fez sinal para ficar quieta. Eu continuei, de olhão arregalado, observando aquelas pessoas estranhas, de porte rígido, inteiramente vestidas de luto, por que seria? até camisa preta fechada, e os padres beneditinos em seus hábitos também negros, e depois, no fim, por uma porta lateral entraram rígidos portadores das bandeiras inteiramente negras do Fascio, recebidas com aplausos entusiásticos. Empinadas, as bandeiras se vangloriaram um instante, se pavonearam satisfeitas, para depois, num gesto teatral ensaiado, baixarem-se todas ao mesmo tempo. De tanto susto, quase gritei. E escondi o rosto na calça de meu pai - que também parecia ser negra.

Frases que captava na conversa dos mais velhos. Minha mãe, contando:“...Então nós fomos ver o comício da Praça da Sé, com a menina, e saiu tiroteio, e só tivemos tempo de subir num bonde que estava passando e fugir”. Li, em um dia de janeiro de 1994, a notícia da morte de Fúlvio Abramo, o qual, diziam, “tivera o poder de deter, organizando um comício, a marcha do integralismo entre nós”. Teria sido esse o comício aludido por minha mãe como o “comício do bonde”?

Toda quinta-feira realizavam-se na Cúria Metropolitana, na rua de Santa Teresa, palestras de Apologética. Fui levada a muitas, dormia num banco enquanto meus pais faziam pós-graduação espiritual. Mas devíamos, na ida e na volta do Largo São Bento (onde tomávamos o bonde para casa), atravessar a Maior Praça do Mundo – havia sempre carros, rodando em fila ou aos magotes, ameaçadores, levava um tempão para se poder atravessar correndo, em tempo sem tantos semáforos. Uma praça que nos comícios criava vozeirões terríveis ecoando nos alto-falantes. Até uma, grossa, enérgica, muito máscula, conclamando:

 - Mulheres de São Paulo!

Era Dona Carolina Ribeiro, a diretora da Escola Normal Caetano de Campos. É homem, mãe? – a única mulher a discursar lá em cima, com os homens. Que todos, pareciam sempre estar muito zangados, brigando, esgoelando, e eu achava que de repente iam começar a se matar.

Não devia estar errada. O “comício do bonde” acabou em tiroteio e mortes, mas a família cristã salvou-se a tempo.