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Marco Antunes



 Todas as vezes que um escritor novato me envia textos para opinar, mesmo que aprecie o material recebido, nunca deixo de sugerir enfaticamente que procure uma boa oficina de criação literária e que siga com empenho o programa.

Sou da opinião que alguma disciplina é melhor do que nenhuma e, isso pelo menos, toda oficina tem que incutir no escritor para que ela mesma possa funcionar bem, minimamente que seja.

Seria ótimo se tudo se resumisse a isso, mas a verdade é que existem outras questões que meu breve conselho negligencia.

Poucas oficinas, muito raras pra ser sincero, são realmente capazes de ensinar o caminho das pedras, que, sempre, sejamos honestos, é o que o neófito busca, e rápido.

Aliás, sobre essa pressa, cabe alguma meditação.

Certa vez, Luis Fernando Veríssimo publicou uma charge que resume com incrível economia de traços e letras o espírito do tempo em que vivemos. Um sábio meditava no alto da montanha e um sujeito de helicóptero, ordenava: “Rápido, rápido, quem somos, de onde viemos e para onde vamos?”.

Às vezes, quando percebo um certo ar de decepção nos meus alunos com a inevitável demora em fazer acontecer a sua literatura, penso que o homenzinho do helicóptero (que, é justo dize-lo, mora em todos nós) quer respostas rápidas, precisas, se possível como as dicas de cursinho que receberam pra fazer vestibular.

É frustrante para o padawan, mas improrrogável, que lhe seja informado o quanto antes, que a Via Crúcis da literatura não tem atalhos, que ele terá que percorrer passo a passo os caminhos até desenvolver minimamente o sentido do que constitui e do que não constitui objeto literário.

Assim, meros extravasamentos emocionais não criam poesia, prosaicos relatos de vivências familiares não fazem um conto, alguma zanga com os instrumentos de poder não bastam para uma crônica, sequer para um bom artigo.

O primeiro contato com essa experiência conceitual é sempre cercado de ressentimento e incredulidade como se o mestre, invejosamente, tentasse boicotar seu impulso criativo, ou pior e mais paranoicamente, como se os “entendidos” em literatura não passassem, em conjunto, de uma maçonaria temente ao novo que limitasse a sonegasse a iniciação por meio de cifras e ocultismos a fim de que, por esses expedientes, não se lhe divida o “poder”.

Explicar ao neófito a essência do que guarda ou não interesse literário é tarefa sempre espinhosa para o mais experiente dos instrutores, porém constitui imperativo precursor de todo o aprendizado que se seguirá. Isto é, o conhecimento tem de ser exotérico e não esotérico. Precisa de alguma epistemologia e de boa didática.

O instrutor precisa desenvolver absoluta clareza de que possui, ao menos, uma percepção razoável dos limites críticos que contornam uma obra de arte. Se cair na armadilha do liberalismo inconseqüente e pregar, por exemplo, que tudo é arte e que esta não tem nenhum limite, estará perdido e perdendo uma oportunidade de pavimentar sua estrada de ensino. Afinal, se “deus” não existe; tudo é permitido constitui raciocínio óbvio e devastador para qualquer argumento posterior em prol de alguma normalização. Tudo será questionável e questionado!

Como ensina o I Ching, no hexagrama de mesmo nome, limites são indispensáveis para que não se perca o conhecimento na indeterminação.

Se for verdade, e sempre parece ser, pensamento crítico constituirá premissa tão vital para uma boa oficina quanto o processo criativo, pois eis que são duas atividades do espírito que precisam funcionar ao mesmo tempo e em tensa harmonia.

Parece fácil, quando se colocam essas idéias assim tão explicitamente, diagnosticar os motivos do fracasso de muitas oficinas.

Tirando o problema evidente de que algumas oficinas não passam de caça-níqueis, dentre os muitos erros, dois se destacam: prometer ao aluno resultados rápidos e desprezar a formação do espírito crítico. Bastam o conjunto desses dois erros para produzir outros muitos em cascata.

O mais aparente será a produção de textos que nunca obterão reconhecimento dos leitores (já nem se diga da crítica) e, portanto, condenados à gaveta ou a alguma edição paga impingida, volume a volume, ao preço de dez reais, às constrangidas prateleiras amigas.