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                                                            (Campinas, 17 de janeiro de 2010)
Cecilia  Prada

                                                                         

 

                                                                        De madrugada, acesa,

                                                                        Apascento meus livros.

 

Auspicioso, envolto em brumas literárias, este dia, para realizar coisa nunca – quase nunca – por mim empreendida, em  longa carreira literária, não muito exposta mas  que me tem ocupado por mais de 50 anos: o desejo de escrever crônicas. Se, aos trancos e barrancos e em intermitências cujas causas não me apetece aprofundar e expor neste momento, tenho sido ficcionista, contista principalmente,  e conquistado alguns prêmios e até leitores no Brasil e no exterior,  a crônica, a vontade de me entregar a esse gênero breve, conversa descompromissada ao pé do fogo tribal ou de lareira cúmplice... bem, essa ainda anda insatisfeita dentro de mim, agitando mil cabecinhas espevitadas – uma réstea de fervor juvenil  no que deveria ser a grisonância uniforme dos dias acumulados?

            Falta-me o elemento essencial, a lareira cúmplice – impossível neste calor tropical, úmido e pegajoso em que estamos há meses aprisionados.  E o cachorro terra-nova – ou seria labrador? – estendido aos pés, e os amigos chegando para jogar tranca à noitinha bebericando um sóbrio uísqui em alguma casa de serra...Condenou-me o destino ao calor, à falta do convívio amical, à burrice desoladora de um jogo de paciência, esse atestado universal de solidão.

             Paciência – mesmo, devo ter, e procurar aproveitar esta frágil corda literária em que vou me equilibrando  para dizer “aí, ô, você!”,  buscando a companhia e o interesse de algum leitor também solitário. A crônica, é o crochê literário que faço. O jogado, o mesclado, o quero-ver. O deixa-ser. Quando ficamos velhos, é só ligar a memória nas coisas, e deixar que ela vá indo, mula velha em estrada conhecida, rumo de casa - a infância, a mocidade. É o natural da vida, e da narração, ou , para alguns como eu, poderá isso ser o tanto esperado, o enfim: isto é, a solução literária, o deixar acontecer. Posso retomar, com estas crônicas, o fio da minha fluência que começou a ser estendido nos tempos da Escola de Jornalismo, numas crônicas meio babacas de menina daquele tempo que começava a ver o mundo ( e a escrever, sim, como todos os adolescentes, furiosamente, sobre ele). 

            A crônica, o suelto --o nome já diz -- é gostosa e se derramando. É meio se permitindo. O cronista, é o cara que se permite. Sim. Não tem que denunciar coisas, consertá-las, elocubrar , despertar multidðes. Crônica não é coisa de multidão. E muito menos de acadêmicos, ou de ideólogos de lábios finos e não-imaginativos. É coisa de escolha, de  venha tomar um café comigo, de papo gostoso. Não de pensamento muito. Só de algumas pensamentaçðes, leves.

  É coisa de avó, de velho amigo, de nós todos com nossas gostosuras, num momento de cansaço em que não precisamos mais salvar o mundo. Mesmo porque de duas uma, ou ele já foi salvo, ou não tem salvação.