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Juremir Machado da Silva

 
Vila e vidraça eram um único signo na mente de Paulo Bicca. Escondida sob a forte chuva de inverno, Palomas lembrava uma imagem devastada pela tristeza dos anos sem fim. A passagem do tempo rumo à morte inexorável realçava a palidez do cotidiano de homens sem fé no futuro. A água batia sobre as casas e rolava espessa, cobrindo as janelas na semi-escuridão. Os moradores do Pueblo de las Palomas - referência a um mítico imaginário de espanhóis valentes e andarilhos - temiam que a chuva nunca cessasse. Chover, chover e chover. Mesmo conscientes do absurdo, entregavam-se ao medo e à barreira do tempo fechado. O horizonte opressivo desencadeava a obsessão  e o mistério.

     A água empapava o capim da cobertura dos ranchos e rolava fria sobre os pouco mais de trezentos habitantes do vilarejo. Embaçada, Palomas assemelhava-se a um quadro movediço feito mais com a engenhosidade do artesão que com a beleza da arte. O vulto solitário de um animal, quase indefinível na paisagem escura, assinalava a persistência do real - a supremacia da vida e do desespero frente à morte e ao tédio. Havia uma estranha beleza nessa capacidade brutal de sobrevivência. A chuva varava os meses e tornara-se por fim mais palpável do que a própria carne. A repetição passou a reger os braços. Não existiam segredos, mas a transparência produzia a opacidade.

     Homens perdidos na imensidão do pampa - vazios e velhos desde  sempre, esgotados apesar da força da História - olhavam através da chuva, sem denunciar o terror a corroê-los, e viam a verdade: os valores arraigados são hábitos destituídos de paixão. Apenas a rotina tinha sentido naqueles dias intermináveis, coloridos de cinza e mágoas e perfumados com o cheiro doce das folhas de eucaliptos ensopadas. Pensava-se na Vila como em um território maldito, na fronteira entre a possibilidade do êxito e a evidência do fracasso.

     Lugar de solo fértil e de pastagens exuberantes, Palomas poderia produzir o suficiente para alimentar a sua escassa população e ainda exportar a carne bovina excedente. Não o fazia. O desencanto ultrapassava a pobreza, conforme uma lógica particular de contradições e surrealismo. Vivia-se para o mínimo existencial, a sobrevivência do corpo. A miséria, de modo absoluto, ceifava poucos habitantes. De fome ninguém morria. Insaciável é o espírito. Sedenta, a garganta dos silenciosos.

     Bicca acreditava que a impotência da alma vinha da chuva, responsável por um legado de desgraças. Em 1823, quando do Massacre da Cordilheira de Palomas, um certo Benito Rodrigues Rivera teria condenado a Vila ao ser morto durante uma tempestade. No Uruguai, Benito, natural de Salto, ficou conhecido pelos turvos vínculos com o sobrenatural. Mescla de filólosofo e feiticeiro, jurava extrair seus poderes da água, a base do universo, segundo aprendera com os gregos anteriores a Socrátes. Palomas cumpriria o destino da tormenta eterna. Indivíduos miseráveis e apáticos espiariam por frestas imperceptíveis as estradas embranquecidas e pagariam a degola do castelhano.

     O branco alternava-se com o marrom do barro, visível nas partes mais elevadas da região, e o verde das coxilhas não afogadas pelo aguaceiro. Bicca pensava na sua alma, uma alma marrom como os olhos do cão junto à porteira, e chorava ao entardecer. A noite chegava lenta e prenunciava o fim, o esgotamento das energias de sobrevivência. Ao crepúsculo, lutava-se contra dois cruéis sentimentos: a sensação de estabilidade do tempo e o crescimento sutil da nostalgia. Somente os nostálgicos, protegidos pelo desligamento do real, resistiam ou conservavam-se lúcidos, escondidos em casulos, eliminando qualquer relação tradicional de amor ou amizade.

     A tarde transformava-se em noite com uma ligeira alteração de cores, quase indefinível troca de intensidade de luz. As sombras fantasmáticas submetiam-se à invisibilidade noturna e os ruídos da escuridão cobriam o silêncio do dia. Paulo Bicca mal discernia o movimento. A noite para ele instalara-se em Palomas. Longa noite existencial, capaz de não ser a simples metáfora do vazio. As analogias não possuiam valor em Palomas, pois ali não havia um devir plausível. A metáfora substitui o real em nome do virtual, sacrifica a verdade para resguardar a imaginação e simboliza a utopia em meio à crise de projetos. Palomas, claro, não tinha projetos. A palavra futuro ultrapassara a decadência: desaparecera.

     O único desejo coletivo em Palomas derivava do trivial, da força inconsciente ou introjetada sob a forma de condicionamento, não de fantasia. Sonhava-se em fazer a chuva parar. Vencer a tortura. Ninguém sabia a que se dedicar fora da realidade da chuva. Talvez sofressem sem ela. Dedicados à salvação do corpo, haviam esquecido o significado do termo "homem". Podiam evitar a morte, jamais gerar a felicidade. Sonâmbulos, não saberiam acordar.

     A água baixava do Alto Grande com fúria e abafava o rumor arrastado do trem. A estação de Palomas ainda esconde algumas das figuras maquinais daqueles tempos. Elmiro, o largador, bate o sino, alheio à eficácia do gesto. Inexiste vinculação entre o repicar do metal, a partida do trem, a angústia dos passageiros e a tristeza dos palomenses, debruçados sobre o parapeito das janelas a enxergar fantoches. Muitas vezes, tonto, Elmiro perguntou-se a razão da existência daquela parada. Consolou-se ao pensar em seu emprego: "Sem ela, mesmo apodrecida e inútil, para onde eu iria?" Palomas era assim, quem sabe patética.

     A capela nunca recebera um padre. Bêbados de poucos vinténs levantavam sempre os mesmos copos em armazéns mofados. Tragavam a fumaça fedorenta de cigarros enrolados à mão. A escola espera ainda os professores afugentados pela intempérie. As estradas perderam os caminhantes. Bicca acorda aturdido nas madrugadas e ouve o tropel de cavalos, os gritos de Benito Rivera, os trovões e o barulho da água triturando palhoças. Benze-se. Dorme. Renasce.

     Um dia, nos sonhos de Bicca, adolescente esmagado pela chuva, Palomas tivera casas, gente rica, matos secos, animais, carretas, trabalho, plantações, amores e vícios. Um dia. Depois, bem depois da chegada de Rivera, quando o mito venceu a história ou esta se mostrou menos vigorosa do que a fantasia, a chuva, verdadeira, soterrou o amanhã. Bicca confessou seus pensamentos ao pai. Ingenuidade, disse-lhe o lavrador Rafael: já nascemos na penúria. Bicca queria mudar o mundo, arrancar os ferros do passado, suplantar a tradição, degolar de novo Benito Rivera e dar um significado à vida. Pretendia libertar-se do minimalismo através de uma mitologia fundadora da noção de humanidade.

     Matar Benito Rivera significaria sepultar o mal. O futuro sairia da lama dos açudes, do peito dos homens e da vontade de morrer por um destino. Ao pai, respondeu pomposo: Tenho o novo nas minhas entranhas. É possível que tenha dito tripas em lugar de entranhas. O desejo do devenir magnífico tornou-se requintado instrumento de tortura, mais eficiente do que as tiradeiras de ferro do Comandante. O temporal ganhou a forma de um monstro dotado de inteligência. Abria o tempo à reflexão e convidava ao desengano.

     Herdeiro do bruxo Benito, Paulo Bicca excomungava as suas raízes, condenava a estreiteza dos espíritos tacanhos e desenhava vôos universais. Palomas espreitava o mundo. O menino reinventava as lendas e construía uma aventura singular a partir da impotência de sua cultura. Inquieto sob as cobertas úmidas, rasgava com a mente o desconhecido. Os cavalos de Rivera passeavam no ar. Bicca apertava-se contra as costas do caudilho, confundindo violência, morte e libertação, e renascia imponente ao pé de montes ensolarados. O abstrato, a rejeição de todos os significados, convertia-se em elogio da inventividade humana.

     As árvores tombadas multiplicavam-se a cada manhã. A água afogava as lavouras. Os animais boiavam na correnteza de falsos rios. Os tetos de palha desabavam sobre moradores indiferentes. Bicca aprendeu toda a importância do presente. Ensinaram-lhe que a noção de vir-a-ser carregava consigo o sofrimento. Recolhidos aos limites do imediato, os flagelados escapariam à ruína definitiva. Mas até dormir tornou-se impossível. Celebrizou-se a insônia dos palomenses. Com ela veio o medo da morte sob os escombros das casas apodrecidas. Passadas várias décadas, restou o terror, o hábito de não dormir e de aguardar a morte. Fartos de chuva, os homens de Palomas esgueiram-se junto às paredes, correm em busca de comida e, saciados com o mínimo, voltam a hipnóticas vidraças.

     As mulheres olham a chuva implacável e gastam adjetivos para qualificá-la. Em vão. A água supera as palavras. As velhas senhoras recuam e brincam com as silhuetas trêmulas que passam lá fora. Fazem silenciosas apostas sobre a identidade das imagens desfiguradas e choram o destino que lhes foi imposto durante uma guerra já esquecida. Nas manhãs de trégua, rápidas horas de estiagem, um jacu martela o canto da solidão:

_ Jacu...ja...cu...jacuuuuu, jacu, jacu, jacu, jacuuuuuu, jacu, jacu, jacuuuuu...

     Anita não suportava a melancolia desse canto. Fechava as portas aturdida, benzia-se, beijava o rosário que pertencera à bisavó, atiçava o fogo e maldizia em silêncio o pássaro sinistro. O rosário era o companheiro de desesperanças, escaramuças e tormentas. Defendia-se com ele do mau-agouro. Mas já a chuva anunciava outras tristezas, já o tempo corria a renovar dores seculares ou a inventar novas chagas. O céu confessava a perenidade do aguaceiro. A velha Anita chorava a amargura dos campos impedidos de florescer e a impotência dos homens proibidos de semear. Havia então unicamente o tempo das mágoas. Anita não se atrevia a condenar em voz alta o jacu;  apesar da angústia, respeitava as criaturas de Deus. O pássaro também cumpria uma sina.

    
(fragmento de meu romance Cai a noite sobre Palomas. Porto Alegre: Sulina, 1991, esgotado há dez anos).